Espelho, espelho meu…

Quem é esta outra pessoa na relação, muito mais interessante do que eu?

Não é uma fala real, mas exemplifica muito bem o que muitas pessoas sentem diante do ‘outro’. O ‘outro’, neste caso, é um metamor, real ou possível. Seja alguém do passado ou do presente mais imediato.

Na história da Branca de Neve, a Rainha Má usava o Espelho voluntariamente para confirmar aquilo em que não acreditava de todo. A Rainha tinha inseguranças - como todos temos - e buscava no Espelho Mágico colmatar essas inseguranças. Quando o Espelho Mágico diz existir alguém ‘mais belo’ não está a tornar a Rainha feia, mas aciona a sua falta de autoaceitação.

No mundo real o espelho é o outro. Ele não cria a nossa insegurança; ele apenas a reflete de volta para nós com uma clareza que não queremos ter. Quando sentimos alguma insegurança no nosso parceiro ou parceira, estamos afinal a olhar para o nosso próprio reflexo nas ações deles. E daí vem esta mistura confusa de sentimentos a que costumamos chamar ciúmes.

No livro ‘More Than Two’, Eve Rickert e Franklin Veaux exploram a ideia de que o parceiro não é o problema. Quando sentimos ciúmes ou inseguranças isto é o alerta de que há uma carência real em nós mesmos. Pode ser falta de tempo com o parceiro, pode ser medo de envelhecer, baixa autoestima, etc.

Da mesma forma a autora de ‘Polysecure’, Jessica Fern, utiliza a Teoria do Apego para argumentar que o ciúme é frequentemente um trauma de apego ativado. Segundo a autora, se não tivermos um apego seguro dentro de nós mesmos, qualquer movimento do parceiro em direção a outra pessoa será lido por nosso sistema nervoso como uma ameaça.

Aceitar que o ciúme nasce justamente de nós mesmos não é nada fácil. A vontade pode ser de partir o espelho a meio, controlando o parceiro, instalando acordos que nos tragam mais segurança e serenidade. Mas se fizermos desta forma vamos apenas jogar a verdade para um canto. E qualquer dia, sem mais nem menos, pode um caco do espelho nos mostrar tudo de volta outra vez.

Há aqui uma outra leitura, entretanto, que deve ser levada em consideração. Assumir a responsabilidade integral pelo próprio ciúme pode se tornar uma armadilha. Ao isentar o outro de qualquer responsabilidade sobre suas próprias ações corremos o risco de uma sobrecarga.

Na não-monogamia ética, a honestidade e o cuidado com o parceiro são inegociáveis. Se levarmos a tese da “falta interna” ao extremo, corremos o risco de ignorar comportamentos genuinamente prejudiciais. E se o espelho estiver intencionalmente distorcido? E se quem o segura o estiver a usar para nos cegar?

Sob certas circunstâncias o ciúme até pode ser um alerta perfeitamente funcional. Se um parceiro quebra acordos preestabelecidos, oculta informações, ou recusa oferecer apoio emocional quando solicitado, o ciúme deixa de ser uma mera projeção de uma insegurança infundada. Passa a ser uma resposta lúcida, natural e até evolutiva a um ambiente que se tornou, de facto, inseguro.

David Buss, em ‘The Dangereous Passion’, traz exatamente esta argumentação: de que o ciúme evoluiu como um mecanismo de defesa crucial para proteger relacionamentos contra rivais e garantir a sobrevivência genética. Sob esta ótica o ciúme se torna algo perfeitamente funcional e natural e não algo patológico ou uma falta interna de quem o sente.

O desafio aqui, eu diria, não é erradicar o ciúme. Não devemos eliminar totalmente este Espelho Mágico, mas sim desenvolvermos a capacidade de dialogar com ele. Quando o nó no estômago apertar perante a existência de um metamor, antes de apontarmos o dedo à superfície que nos reflete, façamos a nós mesmos as perguntas difíceis:

  • O que é que esta situação está a tocar em mim que já doía antes de o meu parceiro agir?
  • É o medo de ser substituído?
  • É a sensação de que não sou interessante o suficiente?
  • Ou é um alerta real de que as minhas necessidades nesta relação não estão a ser supridas?

Descobrir a resposta exige coragem, pois obriga a Rainha que há em nós a largar a obsessão com a “beleza” alheia e a iniciar o doloroso, mas curativo, processo de autoaceitação. E é justamente aqui que a beleza e a complexidade da não-monogamia se revelam em toda a sua profundidade: assumir a responsabilidade pelas nossas feridas internas não significa que tenhamos de curá-las sozinhos. Se a origem do ciúme é a nossa carência, o antídoto não é o isolamento, mas a partilha.

O nosso parceiro não pode consertar a nossa autoestima, mas pode criar um ambiente seguro onde seja mais fácil para nós fazermos esse trabalho. Na prática, esta ajuda mútua ganha forma através de atitudes intencionais de cuidado. E aqui eu deixo o convite para quem sentiu - ou sente - ciúmes pedir objetivamente por isso.

Aqui vão algumas sugestões:

  • Apoio ativo e constante: Não basta amar; é preciso comunicar esse amor na “linguagem” que o parceiro inseguro entende. Lembrar o outro, com palavras, toques e tempo de qualidade, de que ele é desejado e tem um lugar insubstituível na relação.
  • Escuta sem defensiva: Quando alguém diz “Estou a sentir ciúmes”, o parceiro não deve focar-se em justificar as suas ações, mas sim em acolher a emoção. Uma simples mudança de postura para “Vejo que estás a sofrer com isto, o que posso fazer para te ajudar a sentir segurança agora?” muda toda a dinâmica.
  • Desmistificar o “outro”: Muitas vezes, a imaginação cria monstros que não existem. A transparência compassiva sobre as dinâmicas com os metamores ajuda a trazer o espelho de volta à realidade, dissipando os cenários catastróficos que a mente ansiosa constrói.

Na história original, a Rainha Má enfrentava o espelho numa solidão sombria, consumida pelos seus próprios medos. Na não-monogamia temos a escolha de fazer diferente. Temos o privilégio de convidar o nosso parceiro para ficar ao nosso lado, de mãos dadas, em frente a esse mesmo espelho. Quando olhamos para as nossas falhas e carências apoiados por quem nos ama, o reflexo deixa de ser uma condenação. Torna-se, sim, um mapa partilhado para a construção de uma intimidade muito mais profunda e resistente.

No final das contas, a verdadeira maturidade relacional não está em tentar destruir o Espelho Mágico, mas em mudar a pergunta que lhe fazemos. Em vez do ansioso Quem é mais interessante do que eu?, o foco passa a ser Como podemos continuar a ser o porto seguro um do outro, independentemente de quem mais faça parte da nossa história?.

E é precisamente nessa coragem de olhar para o próprio reflexo, bem acompanhado, que podemos enxergar as não-monogamias éticas na sua forma mais bonita: não apenas como estruturas de relacionamento, mas como uma profunda prática de evolução pessoal e amor partilhado.