Uma puérpera, um post da Geni Nunes e a pergunta que mudou tudo

NOTA:embora este texto fale de mulheres cis que são mães (por ser a experiência pessoal da autora), não é a intenção, nem é autorizado pela autora o uso deste texto para fins que não consideram identidades Trans e de todas as outras demais divergências de género.

Era um dia normal de uma puérpera na pandemia quando li, pela primeira vez, um post da Geni Nunes (psicóloga e pensadora indígena) [1] sobre não-monogamia e o combate da monocultura dos afetos.

Por alguns segundos, meu mundo parou.

Silêncio.

Eu estava na poltrona de amamentação, minha bebê dormindo num peito, o outro pra fora. Eu mexia no telemóvel depois que ela finalmente tinha pegado no sono. Fiquei parada, com medo de qualquer movimento brusco que fizesse o chão se abrir sob meus pés.

Reparem: eu já tinha tido relações abertas, cogitado ménage e outras coisitas, mas ainda assim aquilo bateu tão forte que eu quase vomitei.

Continuei lendo algumas coisas (nariz tapado, um olho fechado e o outro aberto), mas não tive coragem de seguir a página naquela altura.

Não é que o assunto não me soasse interessante — é que ele parecia ingénuo.

  1. Se eu já estou exausta e sem dignidade com um homem só, imagina com dois ou três? Vou morrer de cansaço.
  2. Muito mais fácil pro homem. Afinal, a maternidade já costuma ser a mãe em casa sozinha e o homem trabalhando, no futebol ou nos happy hours inadiáveis.
  3. Então quem poderia ser tão ingénuo de achar que inventaram algo bom para as mães?

Note-se: Eu tinha perdido a esperança de qualquer empoderamento enquanto mulher naquela altura.

Por mais bem-intencionada que a página me parecesse, não via ninguém com filhos curtindo e comentando. E aquilo me assustou.

Não só pelo já dito, mas por uma espécie de inveja: então o progressismo tinha dado um passo sem volta logo na minha vez de fincar raízes e virar árvore, apostando no casamento e na maternidade?

E uma pergunta começou a martelar na minha cabeça:

Mães não-mono existem?

É que as coisas também já não estavam tão boas. Eu já me sentia deslocada — e os textos da Geni me tiraram completamente do prumo.

Fui mãe num ambiente muito diferente daquele em que nasci.

A maternidade veio rasgando a minha “civilidade” e me convocando a descolonizar o Rio de Janeiro branco que deixei crescer em mim, para dar lugar à mulher mestiça e nordestina que também me habita.

E veio a Geni, mostrando um tanto de colonizações em cada lado para o qual eu olhava.

Depois vem aquele básico do patriarcado: a gente casa por amor, em busca de um porto seguro, e à medida que nos tornamos mães nossos maridos começam a se portar como filhos adolescentes, disputando atenção com a criança. Até a nossa extenuação completa.

Os amigos deixam de nos chamar para sair.
(Deixam de chamar a mãe — o pai não perde nem amigos, nem trabalho.)

E, assoberbadas em cansaço, o tesão vira uma palavra distante, de significado difícil e vivência impossível.

Vieram também os adoecimentos. Mulheres casadas adoecem e morrem mais do que mulheres solteiras — e isso não é opinião, são dados. [2]

E veio o trabalho não pago. A economia do cuidado mostra o custo do nosso trabalho de cuidado, quase nunca remunerado. [3]

Até os três anos da minha filha, eu nunca tinha tido uma atividade de lazer sem ela e sem o pai. Ele, obviamente, tinha tido algumas oportunidades.

Então vem aquela percepção incômoda:

Não sei se sobrevivo à não-monogamia…

Mas também não é como se a monogamia estivesse entregando muita coisa.

Não entregou segurança.
Não entregou sexo bom e frequente.
Não entregou rede de apoio à maternidade.

Uma coisa que sempre me deu pavor — e que me aconteceu muito — é quando mulheres na mesma situação se juntam e “te acolhem” apenas para reclamarmos juntas da nossa desgraça.

Mas esse acolhimento se baseia em espaço para reclamar, não para mudar. Um espaço de se conformar.

E eu, que sou uma inconformada, logo me sentia esquisita nesses grupos.

Então fiz pesquisas extensas entre posts de Instagram, podcasts e artigos científicos a sério (sou dessas!):

Afinal… mães não-mono existem? Continuei a me perguntar!
Se existem, o que comem? Onde vivem?

A resposta é: sim, nós existimos.

E não, não é nada fácil.

Temos muito menos disponibilidade — de tempo e de dinheiro — para dates.

Somos muito mais seletivas: não dá mais para sair com caras idiotas que não curtem mães, com gente childfree, ou com quem não aceita uma mudança de última hora na programação depois de uma febre ou virose.

Na prateleira do amor (não devia existir, mas existe) [4]. Temos um tantão de inseguranças: as mamas caídas depois da amamentação, a diástase abdominal (mesmo que discreta), as ancas largas.

Mas, cá estamos.

E se você esperava esse texto como uma fórmula mágica ou um convite, esqueça.

Não tenho só coisas boas para dizer. Não é uma historinha de amor.

O que consigo garantir é o seguinte: o chão não abriu sob meus pés e eu não despenquei no abismo ao encarar o tema de frente.

Não existe receita certa. E o meu caminho não precisa ser o seu — experiência pessoal não é método científico nem receita milagrosa.

O que aconteceu comigo foi diferente do que eu poderia imaginar, nomeadamente:

Aumentei minha rede de apoio, seja de amigos, seja de amores. Ando muito menos só.

Tenho estado mais saudável e, mesmo em dias difíceis, sinto-me mais inteira.

E…

Mulheres inteiras são mães mais felizes.

Mulheres desejantes chegam mais longe.

E gozam mais.
Muito mais. 😉

Citações:

[1] Núñez, G. ([genipapos]). (s.d.). Publicações. Instagram. https://www.instagram.com/genipapos/

[2] Ho, M., Pullenayegum, E., Burnes, D., & Fuller-Thomson, E. (2024). The association between trajectories of marital status and successful aging varies by sex: Findings from the Canadian Longitudinal Study on Aging (CLSA). International Social Work. https://doi.org/10.1177/0020872824126779

[3] Müller, E. F., & Moser, L. (2022). Economia do cuidado. Universidade Federal de Santa Catarina. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/242785

[4] Zanello, V. (2022). A prateleira do amor: Sobre mulheres, homens e relações. Editora Appris.

Algumas referências também foram usadas neste ensaio:

Núñez, G. (2024). Felizes por enquanto: Escritos sobre outros mundos possíveis. Planeta.

Núñez, G. (2023). Descolonizando afetos: Experimentações sobre outras formas de amar. Paidós.

Tai, L. (2024, 30 de julho). Vamos acabar com a mãe? [Entrevista com Marília Moschkovich] [Episódio de podcast]. Em Maternidade de guerrilha. Spotify. https://open.spotify.com/episode/4FJlS3E5Iqj1MCWiWc2WbA?si=vgcfGU9BRuWyV0gZQEF5vw

Sobre a Autora

Vida Oliveira é uma baiana radicada no Porto, investigadora, pesquisadora a terminar seus dois doutorados: umem ciências e tecnologias das artes; outro em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Escreve desde que se entende por gente, é mãe de uma menina linda e também é artista. Seu habitat natural certamente é numa coxia ou na régie de um teatro. É e acredita nanão-monogamia ética e política como princípio.