Primeiro, era o afecto. Este é o início da minha Bíblia. E a minha crença é a Não Monogamia. Num dos meus escritos, há quase vinte anos, escrevi que não acreditava que o ser humano fosse monogâmico. Não me fazia sentido que o mesmo Ser que pode amar dois pais, dois irmãos ou dois filhos, não pudesse ter dois interesses românticos. Ainda mais para mim, que sempre me considerei romântico e afectuoso. Estaria a falhar ao apaixonar por duas pessoas? Não poderiam duas ou mais pessoas atrair-me, de formas diferentes ou iguais? E nessa altura não consegui desconstruir esta dissonância cognitiva.

Mantive-me nas relações monogâmicas por medo de perder a outra pessoa ao partilhar esta visão do Amor. Se nem eu conseguia perceber ou definir bem a minha posição, como poderia arrastar alguém para isso. Até porque se falava muito pouco sobre estas visões mais livres de amar. E assim me mantive durante estas quase duas décadas. Tive vários relacionamentos monogâmicos estáveis. Sempre disse que não começava nenhuma relação a achar que ela teria um fim. Era a crença no “para sempre”, que mais tarde se modificou, mas não desapareceu.

Mas ao mesmo tempo sentia que uma parte de mim não estava completa, não estava satisfeita. E não era uma falta ou vazio. Pelo contrário, era a impossibilidade de amar mais e melhor. Como se a monogamia impedisse a minha liberdade de amar, ainda que eu amasse aquela pessoa. Como se fosse um cavalo livre de correr o que quisesse, mas sempre dentro de duas linhas. Nem para a esquerda, nem para a direita, apenas em frente. E ainda dou por mim a pensar como me sentiria hoje se uma dessas relações monogâmicas tivesse resultado. Se o sentimento de felicidade ou de estar completo seria o predominante. Nunca saberei.

Outra coisa em que penso, em retrospectiva, é se o facto de não me sentir completo na monogamia, me fez sabotar de alguma forma as relações. Sabemos que se não estamos totalmente bem ou felizes, não vamos dar os nossos 100%. Que não vamos ser completamente nós. E se não somos sinceros em primeiro lugar com nós próprios, não o seremos a dois.

Costumo dizer que 2022 foi o ano em que assumi de forma inequívoca a Não Monogamia. Sobretudo para mim. Como escolha de posicionamento e de forma de estar. Percebi que só na Não Monogamia poderia ser feliz. E sou. E tranquilo. Porquê? Porque nada tem a ver com as outras pessoas. Tem a ver comigo mesmo. Com a forma como eu quero amar. Amar de mão aberta. Sentir afecto por alguém para sempre, independentemente do tipo de relação estabelecida. Amizade, desejo, companheirismo, amor. Tudo isso é afecto. E eu sou livre de o sentir e de o oferecer, sem necessitar de me preocupar em receber. Perder o medo de perder a outra pessoa. Ou seja, desapegar. Retirar o peso da minha felicidade de cima do outro. Ser feliz a amar. E desfrutar de ser amado.

Esta desconstrução é fácil? Não. Demorou perto de vinte anos. Mas ainda mais do que a tempo para ser feliz.