Não Monogamia Ética (NME). Sim, mas de que tipo?
Há quem considere vários tipos, formas ou fórmulas de a viver. Na transição que a maioria das pessoas faz da monogamia, há quem olhe para a relação aberta como uma primeira forma de amor livre. Normalmente está mais relacionado com a possibilidade de ter relações sexuais fora da parceria. O que os monogâmicos chamariam de traição consentida. Claro que se existe conhecimento, já não é uma traição. Curioso que se comece muitas vezes pela parte física. Como se afinal possamos satisfazer o corpo com outros “alimentos”.
Mas então, e os sentimentos românticos? Pois, aí complica. Ou se calhar não. A admissão que é possível sentir paixão ou amor por outra pessoa que não parceire, deveria ser tão simples como sentirmos amizade por duas ou três pessoas. E aqui começamos a entrar no terreno da Não Monogamia.
A NME é o contexto que permite que uma pessoa possa viver dois ou mais afectos românticos. Digo românticos, porque já falei da questão sexual e porque ninguém coloca questões por se ter dois ou mais afectos de amizade ou atração intelectual. O Amor Romântico é que é visto socialmente como tendo de ser apenas entre duas pessoas. Esta é a norma. Pelo menos publicamente, porque sabemos que os números da infidelidade, sentida, pensada ou vivida, são enormes.
Uma primeira forma de entrada é a relação de não monogamia hierárquica, que pressupõe um vínculo central entre duas pessoas (eventualmente mais), um conjunto de regras e/ou limitações (como o poder de veto, que leva a questionar a parte ética desta não monogamia), ou ambas as premissas. Confesso que esta fórmula é algo que não aceito para mim, sobretudo porque me parece uma fórmula suave de controlo. Mas percebo que possa surgir de um lugar de insegurança e que possa ser uma porta de entrada na NME.
Chegamos então à anarquia relacional e ao poliamor, que são os formatos que mais me fazem sentido. Todos os afectos, sem grau de importância maior, independentemente da antiguidade, distância ou sentimento envolvido. Ou seja, o meu melhor amigo tem o mesmo espaço no meu coração do que o afecto romântico-sexual mais recente. Não hierarquizo pessoas ou afectos. Todos merecem o meu amor, nos formatos em que o sinto. Amizade, desejo, amor romântico, amor companheiro, são tudo formas do meu afecto. Isso é logo esclarecido e explicitado por mim, no início do vínculo. Por uma questão de respeito e expectativas. A pessoa é livre de aceitar ou recusar. Eu é que tenho de me respeitar também.
Mas então é fácil gerir tudo isto? Não. Exige comunicação e compersão. E duas coisas que falarei no próximo artigo.
