Tempo e energia. Duas variáveis complexas de gerir na Não Monogamia, quando temos mais do que um afecto. Falo de afecto como familiares, amigues, parceires românticos ou sexuais. Porque tempo e energia são recursos limitados.
Tempo. Duas formas de olhar para ele. Do ponto de vista objectivo, não estica. O dia tem sempre as 24h, a semana os 7 dias, e a vida uns 80 anos. Afectos, saúde, trabalho, tudo tem de estar contemplado nesse espaço constrangido que é o tempo físico. Talvez por isso a gestão dele seja um dos temas mais ouvidos por psicólogos.
E aí entra a segunda perspectiva de olhar para o tempo: a subjectiva. Se um segundo ou minuto pode ser vivido de forma completamente diferente, dependendo do contexto, companhia ou humor, que dizer de unidades temporais maiores? Não existe a divisão exacta do nosso tempo por tudo o que queremos sentir ou viver. Ou por todos os afectos. Devemos estar logo conscientes disto. Não é o tempo alocado a este ou aquele afecto que torna mais importante. Pode ser um minuto ou um ano. O que importa é a nossa presença real e sentida. Numa era em que cada vez mais se fala em FOMO (Fear of Missing Out / Medo de Perder Algo), tentar estar em todo lado é utopia. Toda a escolha tem ganhos e perdas. E no tempo isso também acontece. Escolher estar com alguém é quase sempre escolher não estar com outre.
O que fazer? Gerir e comunicar. Falar com os afectos sobre o tempo disponível e planear com antecedência para que se sintam cuidados. Na verdade, a vida é uma enorme folha de espaços temporais a ser preenchida. Fazer perceber que se quer atender e cuidar o melhor possível, sem existir perfeição. E quando se está com alguém, estar de facto ali. No momento presente. Sem pensar no que poderia ser outra escolha. Se existir compersão, toda a gente terá o seu tempo de qualidade.
E a energia? A energia, mesmo para quem tenha muita, também é finita. Além do descanso/sono, é fundamental silêncio e solitude. Porque estar sempre em modo dar ou partilhar, drena a energia. Claro que existe recompensa emocional. Mas exige psicofisiologicamente. Aquilo que muitas vezes apelidamos de bateria social não é inesgotável. Até para as pessoas que adorem estar com pessoas. A mesma coisa com afectos. Não é possível estarmos a 100% em todos os momentos. É muito importante aprender a perceber e comunicar isso. E que pode haver momentos para tudo. Festa, adrenalina, dopamina, também cuddling, serotonina, oxitocina. Todos os eventos e neurotransmissores são prazerosos com Afecto. Respeitar a nós mesmos quando a energia está baixa. Viver sempre nos 100% pode parecer intenso e excitante, mas não é sustentável no longo prazo.
Tempo e energia são recursos que temos de aprender a gerir, sabendo que existem perdas e ganhos, mas tentando que nunca existam desperdícios.
