Paramos de nos relacionar com exclusividade afetiva e sexual, mas isso não quer dizer que paramos de reproduzir a crença social que existe sobre os relacionamentos: de que eles são o centro da vida adulta.

Centralizar numa relação monogamica gera codependência, confusão de identidade, isolamento social.. Entre outras mais possibilidades. Mas quando centralizamos os relacionamentos na vivência não monogamica, acrescentemos a isto a grande probabilidade de gerar exaustão e colapso.

Será polisaturação ou centralização dos afetos? Será que o problema é não ter espaço para todas as pessoas ou não ter espaço para nós mesmos?

Quando não existem limites entre o meu espaço e o do outro, e as minhas relações acontecem de um lugar onde eu me doo antes de olhar para as minhas necessidades, não pode existir uma sensação de equilíbrio e nutrição. Faremos isto por carência? Teremos sequer noção de que o fazemos? A verdade é que o modelo social que conhecemos parece dar um reforço ilusório de segurança à nossa pequena criança interna que tem medo de ser abandonada. A ideia inconsciente de que se cuidarmos do outro ele vai estar ali para cuidar de nós (até onde não é sua responsabilidade).

A não monogamia pede responsabilidade com os outros sim, mas essa responsabilidade começa connosco próprios. Precisamos de aprender a tornarmo-nos capazes de suprir as próprias necessidades, nutrindo-nos da teia mas centralizando o nosso próprio umbigo - e ao contrário do que crescemos a ouvir isso não é errado.

O que eu sou capaz de dar ao outro, que eu não vá acabar por cobrar mais tarde ou até dar de má cara, quando eu estou a ser negligente comigo mesma? Dar não deveria ser um ato genuíno e incondicional? Que tenhamos mais coragem para questionar os nossos próprios padrões dentro da nossa relação com os outros e connosco próprios. Porque se não o fizermos, o colapso não será apenas nosso. Quando uma pessoa amargura, a outra também é contagiada a partir da ligação de ambas. No final, ninguém ganha.

No fim do dia importa recordar: nascemos sozinhos e morreremos sozinhos, não levaremos ninguém connosco. Apenas o que vivemos, a sós e em conjunto. As nossas necessidades múltiplas precisam de ser conscientes e ser tidas em causa, essa é a única forma de assegurar a nossa segurança. Centralizar o romance não garante a segurança, mas pode garantir colapso. Nós merecemos estar no centro das nossas próprias vidas também para o bem das nossas relações, porque colocá-las no centro não sustenta paixão mas sustenta o desequilíbrio.