“Ei, vêm uns amigos para ver os óscares, como no ano passado, e pensei em convidar-te, afinal foi tão divertido contigo da última vez.”

“Que horas? Vou ver aqui e te confirmo. Posso te confirmar mais tarde?”

“Pode, claro”, disse eu, como sempre aberto a qualquer coisa.

O diálogo acima passou-se por volta das 11h da manhã. O evento em questão começava oficialmente às 23h. Já antes de convidá-la eu passara cerca de uma hora em dúvidas, e no final acabei cedendo ao desejo de vê-la e de tentar resgatar um momento bonito do passado de forma a ressignifica-lo no presente.

Entretanto, diante da dúvida dela, a minha resposta instantânea foi o padrão do meu modo de existir. Primeiro eu respondo que ‘sim’ e depois eu reflito a respeito. E quanto mais tempo disponível para esta reflexão mais complicada ela fica.

Olhando para trás, com a calma da noite dormida, eu percebo que o ‘vou ver aqui e te confirmo’ que eu esperava levaria umas duas horas. Não mais do que três. Mas à medida em que o fim da manhã virava tarde a minha certeza virava dúvida.

Quando o relógio marcou exatamente 15h15 eu já não conseguia conviver com a dúvida e mandei-lhe uma mensagem. “Posso ser honesto contigo?”. Era uma tentativa de ser honesto comigo mesmo. Eu me sentia preterido, abandonado. Me sentia relegado à posição de ‘se não houver programa melhor, vou lá ter com ele’ e isto estava a me consumir.

Não era a primeira vez que eu sentia assim com essa pessoa, e, principalmente, eu sabia que o meu ‘sim’ da manhã não era algo genuíno e entregue com todo o corpo. Eu só reagi sem atentar para o que o meu corpo de fato me dizia.

Só mais de três horas depois é que ela respondeu a dizer que que eu podia ser honesto, e já emendando “Não quer mais que eu vá?”.

Ela já sabia, tanto quanto eu. E eu disse como me sentia e tomei a coragem de assumir para mim e para ela o que eu de fato precisava: não te quero ver. E isto, como era de se esperar, doeu nela. Disse-me que não foi bacana da minha parte ter marcado algo e desmarcado depois. O que de fato não foi, mas…

Eu marquei mesmo algo? Agora ao escrever e refletir percebo com clareza que, sim, eu deixei o convite em aberto. O ‘pode ser mais tarde’ transformou-se num tempo indefinido, suscetível a expectativas de parte a parte. E isto pode ser visto como um comportamento desagradável, mesmo tóxico. Mas aqui dentro foi uma medida de auto proteção da minha parte. Eu estive em sofrimento, comuniquei isso e cancelei o programa que, afinal, nunca tinha sido confirmado.

Não estou inteiramente de acordo que eu tenha sido tóxico neste movimento. Mas também não estou inteiramente seguro de que não tenha sido. Talvez eu tenha sido mais parvo para comigo mesmo, não dando atenção ao que eu de fato senti quando recebi o primeiro ‘te confirmo mais tarde’. Não impondo limites a este ‘mais tarde’.

Entretanto uma certeza eu pude tirar desta história toda: eventualmente nos vemos em situações sem saída em que a única maneira é alguém sair machucado. Nestas situações impossíveis, penso eu, a única forma de estar certo é cuidar de si primeiro.